Antipetismo não alcança Anhanguera e Perus no 1° turno

Por Carlos Henrique. F de Souza*

O antipetismo foi a tônica do debate nas eleições 2018, sobremaneira na reta final do primeiro turno. O sentimento de desamparo causado principalmente pela grave crise econômica que assola o país e a endêmica onda de corrupção exposta agora pela operação Lava Jato – que atingiu quase todos os partidos, mas principalmente o Partido dos Trabalhadores pela grande exposição midiática – fez emergir um sentimento muito forte de negação a tudo que se refere ao PT.

Todavia, do outro lado da polarização, o candidato alternativo, com um programa completamente anti pobre – como assinalou o respeitado economista francês Thomas Piketty -, guiado por discursos vazios e palavras de efeito que são de fácil aceitação – justamente por serem vazias e não tratarem de problemas sistêmicos – contribuiu para que vários segmentos da população rejeitassem até mesmo o antipetismo e aderissem, por conseguinte, ao programa do PT. É de um desses segmentos que trato aqui nesse breve artigo.

A zona eleitoral 389 do Estado de São Paulo é composta por seções eleitorais que se localizam em 31 bairros distintos. Contudo, a maior parte se encontra nos distritos Anhanguera e Perus. Uma análise detalhada da votação no primeiro turno nesta zona eleitoral dá ensejo para que se possa inferir que o sentimento antipetista quase inexistiu em Anhanguera e Perus.

A tabela 1 evidencia que embora o candidato Bolsonaro tenha saído vitorioso, a diferença  para o candidato Haddad é muito menor quando se compara com os dados nacionais (46% para Bolsonaro e 29% para Fernando Haddad). Somados os votos dos dois progressistas – Ciro e Haddad – eles passariam tranquilamente o candidato do PSL.

Tabela 1. Votação para presidente – Zona eleitoral 389

Fonte: TSE

A tabela 2 é mais alentadora ainda para o Partido dos Trabalhadores. Na votação para todo o estado de São Paulo, João Doria saiu vencedor com 31% dos votos e Márcio França ficou em segundo com 22% dos votos válidos (os dois estão no segundo turno). Não obstante, na zona eleitoral analisada Marinho (PT) acabou saindo vencedor. O candidato do PSDB amargou a quarta colocação.

Tabela 2. Votação para Governador – Zona eleitoral 389

Fonte: TSE

Na tabela 3 a expressão do não-antipetismo é mais óbvia ainda. O candidato a senador Suplicy, acabou não se elegendo, ficando com a terceira posição. Contudo, aqui ele obteve uma enorme quantidade de votos. Quase 10 mil a mais que o candidato do PSL, Major Olímpico.

Tabela 3. Votação para Senadores – Zona Eleitoral 389

Fonte: TSE

O não-antipetismo é expresso também na votação para deputado federal. Observando a tabela 4 é possível concluir que o PT teve grande êxito na candidatura do agora reeleito deputado federal, Zarattini. Além de ter sido o segundo mais votado, quase empatado com Eduardo Bolsonaro, ele foi um dos poucos que tentaram se reeleger e obtiveram uma variação positiva quando se compara as eleições de 2014 e 2018 – dado demonstrado pela tabela 5. Vale salientar também as robustas e signficativas candidaturas de Sâmia Bomfim e Luiza Erundina – ambas pelo PSOL –  que compõem o top 10. O PSL conseguiu duas expressivas candidaturas respresentadas por Eduardo Bolsonaro e Joice Hasselmann.  

Tabela 4. 10 Deputados Federais eleitos mais bem votados – Zona Eleitoral – 389

Fonte: TSE

É interessante observar, na tabela 5, a variação dos votos dos candidatos que integram o atual top 10 com as eleições gerais de 2014. A negação a “tudo isso que está aí” é bem evidente – embora ideologicamente a diferença seja insignificante. Apenas 3 deputados obtiveram variação positiva, sendo o do PT a maior variação para cima. Celso Russomanno perdeu quase 67% dos votos; Paulinho da Força, não obstante não aparecer no atual top 10, teve um resultado complemente inexpressivo nessa zona eleitoral.

Tabela 5. Variação dos votos dos Deputados Federais – 2014-2018

Fonte: TSE

Finalmente, apesar da imensa dificuldade que o PT tem enfrentado pelas periferias de São Paulo, os residentes de Anhanguera e Perus ainda têm em seu imaginário uma preferência muito clara pelo Partido dos Trabalhadores. Isso tem sido demonstrado há pelo menos desde as eleições de 2014 – que posteriormente também serão objeto de uma análise.

*Carlos Henrique F. de Souza é graduando em Gestão de Políticas Públicas pela EACH/USP e membro-fundador do Anhanguera: Luta e Resistência!

Eleições 2018 – Entrevista com Tábata Amaral

Continuando a série Eleições 2018.

Dividi o post em 5 partes contendo partes das entrevistas para melhor navegação. Assim, quem quiser ler um pouco de cada vez poderá navegar mais facilmente.

A minha primeira convidada é a candidata Tábata Amaral (1200) que está concorrendo à uma vaga Deputada Federal pelo PDT.

 

Para a jovem que cresceu na Vila Missionária e viajou ao redor do mundo (China, Turquia, Polônia e outros países) representando o Brasil pelas Olimpíadas de Matemática e competições de ciências, a educação é a chave para conseguirmos criar um país com menos desigualdade e com maior oportunidade para todos.

 

 

 

Apesar da oportunidade que teve, Tábata quase desistiu das bolsas de estudo após o falecimento de seu pai.

Vila Missionaria – Passeata na campanha

(…)Ganhei bolsa em 6 faculdades americanas enquanto fazia física aqui na USP e foi aí que minha vida mudou completamente. 

            Com essa notícia que eu tinha recebido uma bolsa completa para fazer uma faculdade em Harvard e no momento de maior felicidade e incredulidade, quatro dias depois, eu perco meu pai da mesma maneira que eu perco meus amigos. Para as drogas, para o alcool e foi uma luta que travamos por muitos anos” – Tábata Amaral

 

Rafael: Pela sua trajetória, assim como a minha, nós vemos amigos indo para caminhos errados com tráfico, se envolvendo em drogas e com roubos infelizmente. Eu acredito sim que a cultura e a educação vão mudar isso. Quais são suas propostas nessas áreas?

Tábata: Fazendo uma pequena pausa antes, sobre o porque eu entrei na política, você trouxe uma coisa muito rica que é sobre a experiência de vida que a gente carrega. É claro que a gente tem que eleger pessoas que são preparadas e tem conhecimento, mas a gente esquece que a experiência do dia a dia é rica. E com meu ativismo da educação de meus anos de agora, não vai dar para eu mudar a educação, não vai dar para eu lutar para um país mais justo se a gente não mudar a política. E eu acredito que a gente vai mudar a política porque eu sei o que é na pele, sair do ensino médio público hoje, sem nenhuma perspectiva, sem nenhum sonho e nenhum projeto de vida.

Rafael: Exato,  ver o indicador (de qualidade) do ensino médio, o IDEB, desde 2011 estando em 3.7 e indo para 3.8 em 2017, é horrível. Ver que meus amigos, seus amigos, uma comunidade, uma geração inteira está alí é uma tragédia.

Tábata: Tem um dado, que saiu a pouco mais de um mês que diz que 7 de cada 10 brasileiros adultos são analfabetos funcionais e quando a gente olha para o ensino médio, que a gente sabe que é um funil que nem todos se graduam no Brasil, só 3 em cada 100 estão aprendendo o mínimo de matemática, e português não é muito diferente, a gente se pergunta, que educação que é essa que estamos recebendo? Que não te prepara para o mercado de trabalho, não dá chances iguais para ingressar em escolas públicas e privadas e não te dá um projeto de vida.

Rafael: Você falou uma coisa chave, a educação tem que ser o equalizador de oportunidades de vida. Para um país que se diz meritocrata não ter um mínimo de educação equivalente para igualar as oportunidades é uma trágedia.

Tábata: E falando de meritocracia, é um conceito que faz todo o sentido na teoria, porque na teoria as pessoas partem do mesmo ponto de partida então você pode só olhar o ponto de chegada, mas o Brasil não é assim. A depender do endereço, da cor da pele, da idade e de ser homem ou mulher a gente parte do ponto de partida diferente e a gente tá acabando com os sonhos da juventude então isso é algo que também me motiva a entrar para a política porque se a gente que conhece esse chão não for lá e lutar por um futuro diferente, quem é que vai? Quem está com filho, neto e bisneto e que está no poder a 200 anos? Sabia que lá tem uma família que está a 200 anos?

Rafael: Pode falar o nome dela?

Tábata: Eu acho que as pessoas podem pesquisar. Fica o dever de casa!

Rafael: Novamente falando sobre suas propostas, como você imagina melhorar o IDEB e os nossos indicadores de educação nos próximos anos em seu possível mandato?

Rafael: Essa qualificação continuada que o professor hoje não consegue ter, é decorrencia, muitas vezes, dele precisar ter uma jornada dupla e dar aula no fim de semana.

Tábata: Sobre a formação continuada, no Brasil ela não é levada a sério. Ela é, na grande parte dos municípios e estados, uma aula inspiradora no começo do ano. E aí eu pego o exemplo do Ceará em Sobral, que de fato fez um trabalho sério para formar os professores. Primeiro nas matérias e depois como professores mesmo. Porque a gente tem sim que mudar a formação inicial, entrar com uma formação continuada séria para que uma remuneração mais justa, carreira do professor e avaliação, façam sentido com a bagagem que ele recebeu. Essa é uma temática que vai dar um trabalhão mas acredito ser uma das mais urgentes entre a educação.

 

Rafael: Agora vou perguntar o porquê que você foi para o PDT? Qual foi sua força e inspiração que fizeram você ir para este partido?

“Então quando você olha para isso [melhoria educacional em Sobral], eu tive a oportunidade de trabalhar em Sobral, e você vê que isso aconteceu com vontade política, com boa gestão, com comprometimento com educação, e essa é minha causa, minha bandeira principal. Para mim faz muita sentido estar em um partido que de fato olha para a educação, que de fato tem um plano com o qual eu concordo.” – Tábata Amaral

 

Rafael: E sobre a cultura? Participo de saraus, batalhas de rima e outros movimentos que dão voz ao jovem. Você tem algum projeto em cultura também?

Rafael: Tábata, como última pergunta, gostaria de saber o que você achou sobre a solução que nossos políticos encontraram para a economia do país, o Teto de Gastos.  Pode comentar rapidamente?

Fiquem atentos, ainda teremos mais algumas entrevistas sobre as eleições 2018.

***Desculpem o áudio ruim do começo. O microfone apresentou problemas e por conta da agenda dela, não conseguimos marcar em local com boa acústica****

Eleições 2018 – Deputados e Senadores são mesmo importantes?

Este será o primeiro poste de uma série ilustrando a importância dos nossos representantes.

Esse é o ano mais importante em termos de eleições. Vamos escolher quem vai fazer nossas leis, e quem vai executá-las em vários níveis federativos.

Teremos eleições de: Deputado Estadual ou do Distrito Federal, Deputado Federal, dois Senadores, Governador e Presidente.

Temos 1059 Deputados Estaduais, 513 Deputados Federais, 81 Senadores, 1 Governador e 1 Presidente. Isso dá um total de 1655 novos representantes, contando no Brasil todo.

Muitas pessoas para cargos importantíssimos. Mesmo que você não goste de política, tudo que eles vão fazer ou deixar de fazer vai influenciar na sua vida.

Vou te mostrar o porque essas pessoas são importantes.

Deputados e Senadores: são o cérebro do país.

Vamos ver o que o cérebro do país está pensando no Congresso Nacional:


É, parece que eles são um bloco bem unificado de fato. Aliás, creio que a ilustração está com um erro.

Claro, nem todos são assim. Alguns pensam no povo também e devemos reeleger estes, então a pesquisa do seu candidato é essencial.

Os Deputados e Senadores também fazem as leis, fiscalizam o Presidente e fiscalizam outros órgãos (sendo este papel menos observado).

Porque eles são o cérebro?

Eles vão trilhar os caminhos que todas as pessoas vão ter que seguir. Na realidade, não só pessoas, as empresas também, bem como as instituições sem fins lucrativos e qualquer outra coisa que você possa pensar. Eles têm o poder para colocar leis em tudo, seja ajudando ou atrapalhando.

O peso da caneta deles é muito grande, então eles precisam ter uma visão clara e um projeto de crescimento do país em mente.

Nossos representantes selecionados em 2014 foram muito ruins. Não apenas o PT ou o PSDB foram ruins, foi generalizado. Eles não sabiam pra onde ir. Fazer as leis certas para projetos de retomada do crescimento é de grande importância e em um momento de crise é essencial, aumentar seu próprio salário, não.

Por isso não podemos mais colocar representantes que pensem, basicamente, assim:


Eles também tem o papel de melhorar a fiscalização nas contas e buscar maneiras dos órgãos que fiscalizam serem mais efetivos. Vamos pegar os Tribunais de Contas por exemplo:

Esses tribunais julgam as contas normativamente de vários entes e órgãos, ou seja, eles só olham se o que foi gasto está dentro dos processos legais, mas não verificam a efetividade do gasto, que significa observar se foi bem feito ou não. Cabe ao poder Legislativo, Deputados e Senadores, fazer leis ou pressioná-los sobre este problema. Por exemplo, sugerir métricas de análises de contas mais rápidas, verificar se os gastos dos próprios Tribunais de Contas estão sendo absurdos e no limite, intervir com leis para controlá-los, pois eles controlam estes controladores.

Respondendo a pergunta do título, sim, Deputados e Senadores são muito importantes. Escolha bem.