USP e os alunos de Escola Pública.

Estava vendo as notas de corte para o acesso de novos alunos para a Universidade de São Paulo, muitas vezes classificada como melhor universidade da América Latina, a maior e melhor do Brasil.


Quando falamos de uma prova para adentrar a uma das melhores faculdades que temos, pensamos naturalmente que a concorrência será alta. Mas porque será que os alunos de escola pública são a minoria nessa prova sendo 73,5% do total de alunos, a maioria dos estudantes brasileiros?

Fonte: Fuvest

A participação em percentil dos alunos de escola pública para a tentativa de realizar a Fuvest é, em alguns anos da série, menos que a matade em relação aos alunos de escola particular.

Acredito que os principal motivo são: Desconhecimento da universidade e seus benefícios e a descrença que podem passar. Eles não conhecem a USP, não sabem que é gratuita e ela pode te dar dinheiro por meio de bolsas para estudar. Não sabem que a faculdade é de todos, mas quem tenta entrar em sua maioria são alunos de escola particular, que sabem desde cedo a importância de uma boa faculdade (e não pagar por ela é um grande bônus). Os pais, desde cedo pagam escolas particulares para os filhos visando a entrada em alguma universidade pública.

A descrença em passar na prova é ampliada quando o candidato sabe que a qualidade de ensino de escola pública é menor do que a particular e que temos poucos exemplos. O número aprovado vindos de escola pública no vestibular é baixo e as pessoas tendem a se blindar de situações onde elas sabem que podem se decepcionar.

Fonte: Fuvest

Porquê o desinteresse, desconhecimento e talvez até falta de confiança? Sinceramente, não tenho a resposta para isso, mas tenho minha experiência de vida como aluno de escola pública na minha vida toda.

1-   Professores não comentam a existência da USP

Alguns professores, muitas vezes por não acreditarem nos alunos, nem chegam a comentar sobre a USP e seu possível ingresso nesta instituição.

2-   Falta de feiras de profissões nas escolas públicas

As feiras de profissões servem para falar um pouco sobre o futuro dos alunos e neste lugar, as faculdades, podem se expor. Em todo o meu ensino fundamental e médio,  não vi nenhuma universidade pública se mostrando para fazer propagandas de seus cursos. As universidades que frequentemente nos visitavam para fazer propagandas eram a Uninove, Unip e FMU. Acredito que tenha dado certo, vários de meus colegas passaram por essas faculdades.

3-   Desinteresse das classes A e B+ da disseminação dessa informação  

Este ponto se explica nele mesmo. Os ricos sabem que a faculdade existe e pretendem colocar seus filhos lá. Mais gente na concorrência torna o acesso  mais difícil então é interessante o mínimo de pessoas conhecerem.

Por isso também a raiva destes com cotas para escolas públicas e grupos que são minoritários, PPI.

4-   Informação não espalhada dentro da própria comunidade e da família.

O que desconhecemos não é passado adiante. Conheci a USP por acaso, fora do meu circulo social que cresci, ninguém da minha família ou amigos havia me falado sobre essa faculdade. Ninguém me falou sobre porquê ninguém sabia ou tinha poucas informações sobre.

Imagine uma família que não tem ninguém com graduação e que os chefes da casa tem até a 4ª série? Acredito que você tenha entendido meu ponto.

5-   Desacreditação social constante

A sociedade em geral desacredita na ascensão social e que as pessoas que não estudaram em boas escolas, vão conseguir adentrar a faculdade. Felizmente essa tendência está mudando com movimentos de empoderamento que fazem aumentar a auto-estima, acreditando nas pessoas e seu potencial, independente do local de partida.

Finalizo este texto com uma história pessoal de um dia após a Fuvest 2017.

Fui em um bar no centro, era noite da primeira fase da FUVEST 2017 mais precisamente.

Esse bar era perto da Paulista, o Bela Jaú. Lugar confortável, litrão e bebidas baratas. Calhou de meus amigos combinarem sem querer este dia para irmos lá.

Eu já tinha prestado a prova e sei como é que ficamos após: “prova difícil da porra!” “Acho que foi o ano mais difícil” “putz, nem vi essa matéria”.

Em toda roda que passei havia um comentário sobre a Fuvest e a USP. Pelo padrão das pessoas foi fácil de identificar: jovens de classe média e alta que prestaram a prova e estavam relaxando após.

Quem estava por lá e não sabia que existia a Fuvest, ficou sabendo.

Horas depois, voltei pra minha vila e lá, com o pessoal da mesma idade, o papo era totalmente diferente. Falava de moto, carro, rolês e outras coisas. Nós mal tocamos no assunto faculdade, quanto mais faculdade pública.

Lembrei que sempre foi assim, nós não trocamos esse tipo de ideia por desconhecimento e crescemos assim. Nossos pais não falam sobre, nossos professores também não e não vemos nenhuma propaganda. Temos acesso a outras coisas e outros tipos de conhecimento.

Por isso, sempre comemoro e incentivo quando algum amigo meu tem o desejo de entrar na USP. Sabemos que a concorrência é ampla e a trajetoria muito difícil, mas precisamos sempre espalhar a informação, incentivar e falar que é possível irmos contra a tendência do sistema.

Referências: 

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2017-12/ensino-basico-tem-735-dos-alunos-em-escolas-publicas-diz-ibge

Fuvest.br

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